Administração. Decreto feito sob silêncio e sem análise do Congresso muda estatuto e abre espaço para que o PT, que hoje tem o controle da empresa, transfira servidores de outros órgãos para ‘funções gerenciais e técnicas’; antes, só concursados ocupavam postos.
Governo cria brechas que permitem
aparelhamento político nos Correios
_____________________________UM HISTÓRICO DE PROBLEMAS
Alvo de cobiça dos partidos aliados do governo, a estatal sofreu duas grandes crises durante a gestão do ex-presidente Lula
2005
Os Correios foram o estopim da crise do mensalão, em 2005, ainda no primeiro mandado do ex-presidente Lula. O ex-chefe de Contratação e Administração de Material da estatal, Maurício Marinho (fotos) foi flagrado em vídeos recebendo propina.
2005
2010
Apagar as luzes: os Correios foram novamente pivô de uma crise. Depois de denúncias de tráfico de influência na estatal, o então diretor de operações, Eduardo Artur Rodrigues Silva, conhecido como Coronel Quaquá, foi demitido.
Queda da Ministra: As denúncias envolviam Israel Guerra, filho da ex-ministra da Casa Civil, Erenice Guerra. Ele teria intercedido em favor da MTA Linhas Aéreas para um contrato com a estatal. A ministra pediu demissão após o episódio.
2010

‘Boas práticas vão ser Socializadas’, diz empresa
A reportagem do Estado procurou na ultima quinta-feira a assessoria dos Correios e pediu uma entrevista com algum dirigente da empresa para tratar das mudanças no estatuto. A estatal, porem, preferiu responder por escrito. Na resposta enviada ao jornal, argumentou que a possibilidade de levar pessoas de outros órgãos públicos para trabalhar nos Correios “permite a socialização das boas práticas e experiências vivenciadas no âmbito da administração, até mesmo para auxiliar na apuração de penalidades administrativas praticadas por empregados públicos, antes submetidos apenas a própria corporação”.
Na nota, a assessoria alegou ainda que a ideia foi se igualar a outros órgãos da administração pública, usando como parâmetro o Decreto 4050/2001. O texto desse decreto, porém, trata de cessão para cargos comissionados, aqueles de livre de nomeação, algo que não existe nos Correios.
· Manobra. A manobra foi criar uma espécie de “equivalência” no Manual de Pessoal, documento interno dos Correios, entre os cargos de confiança de outros órgãos com os de carreira da estatal.“O objetivo da alteração foi equiparar os Correios a outros órgãos da administração pública, onde a cessão de funcionários é normal. Os Correios, como outros órgãos da administração direta e indireta, podem receber trabalhadores cedidos, da mesma forma que a ECT cede, muitas vezes, empregados para trabalhar em outros órgãos”, afirmou.“A cessão e uma oportunidade de compartilhamento de experiência entre pessoas que são subordinadas ao mesmo patrão: o governo”, disse. Segundo a assessoria da estatal, essa é uma pratica bastante comum em outros órgãos federais: “O instrumento de cessão de servidores públicos é prática largamente adotada pela Administração Pública. E tutelado, inclusive, pelo Decreto
4.050/2001. Cessões entre servidores somente poderão se dar para a ocupação de cargos de Direção, Chefia e Assessoramento superior “.
· ‘Experiência’. Para a direção dos Correios, as mudanças ajudaram o desenvolvimento dos trabalhos realizados na estatal.“Neste sentido,contar com a experiência de servidores da Caixa, do Banco do Brasil, de ministérios e universidades federais está trazendo avanços a ECT e, como consequência, melhor atendimento ao interesse publico e o bem-estar social”, justificou .No total, os Correios contam hoje com pelo menos 108 mil funcionários e há, exatas, 19.782 funções técnicas e gerenciais. Os Correios tem orçamento anual de aproximadamente R$12 bilhões, dos quais R$ 500 milhões para investimentos.
Rui Nogueira e Leandro Colon - O Estado de S. Paulo
Uma mudança cirúrgica no estatuto dos Correios, feita em maio deste ano, permite ao Partido dos Trabalhadores aparelhar os principais cargos de direção, chefia e gerência da estatal. "Dono" dos Correios no governo da presidente Dilma Rousseff, após uma longa hegemonia do PMDB na era Lula, o partido poderá agora levar funcionários de carreira de outros órgãos do governo para assumir vagas de presidentes de comissões de licitação, diretores regionais, superintendentes executivos, diretores regionais, chefes de departamento, coordenadores de negócios e de operações, entre outros cargos.
Até então, essas funções só podiam ser ocupadas por servidores concursados da estatal. A partir de agora, o governo está livre para tirar os funcionários de carreira e trocá-los por apadrinhados políticos.
A manobra está no Decreto 7.483, assinado no dia 16 de maio pela presidente Dilma Rousseff e pelos ministros Paulo Bernardo (Comunicações) e Miriam Belchior (Planejamento). A decisão, que não precisou passar pelo crivo do Congresso, criou dois artigos que não existiam antes, os de número 43 e 44.




